20.11.09

Miudezas

As formigas tão miúdas
fazem da parede trilha

sequer têm vertigem

carregam folhas migalhas
- é uma maravilha

são vorazes e agudas

mas na verdade não podem
com o peso de uma ervilha

6.10.09

Cobras que se criam

Enquanto cobras são criadas
como se fossem de casa

eu, em nome de nada

afogo afoito em água rasa
prometo às cobras pauladas

ao invés de asa...

e de alma lavada
dou adeus às gargalhadas

5.10.09

Dramas On Line

o nickname gutchgutch
que rasga sonhos avulsos

pelos fóruns do orkut

está hoje inquieto e convulso
como quem vive em vão

e no truque

pensa em cortar os pulsos
esperando salvação

28.6.09

Colossais

Ó, quantas estátuas ainda
trarão o crivo da Medusa

mítica, malvada e linda?

Ó, lava obtusa
a esculpir Pompéia

o que restar depois é pó

poeira miúda - outra idéia -
feita de sal, varrida por Ló

22.6.09

Vende-se

Vendo os dias santos
impune na simonia

as tardes tortas de quinta
inundadas de encantos

e uma manhã mais fria
onde o próprio frio sinta

vontade de se aquecer

21.6.09

Um Dia a Sala Trai

Túrgido, desfiou a poeira
tramada no tapete persa

vendo os séculos por um fio

a baldear mil alergias
onde a sorte trapaceira

se desdobra em vice e versa
e atiça o calafrio

aceso na luz dos dias

16.6.09

Deus me livre

da combinação orgânica
que por si traduz infecões

- e à emergência obrigue -

expostas na química quântica
- cura maior das ilusões...

Deus me livre do sangue

essa nódoa colorida à pílula
que no susto me sustenta

aos gritos, do templo ao mangue

por cada ponto e cada vírgula
na urgência que se apresenta

5.6.09

Questões Avulsas de Caráter Eventual e Especulativo

Então é isso:
o dito pelo não dito

escavacando as bocas?

é assim então:
à força bruta o rito?!

o grito das goelas roucas

o apelo sem noção
no risco das almas ôcas?

4.6.09

Fratricida

Trago toda a raça dos ingratos
dos malditos bastardos avulsos

- os que cospem nos pratos -

e os que tatuam nos pulsos
o meu santo nome em vão

sob o sol do meio dia

trago-os com a simpatia
que Caim teve pelo irmão

3.6.09

...

...e se eu fosse deputado
com faca e queijo na mão

mas doidinho pelo senado?

seria amigo do peito?
- apertaria a mão -

do atual prefeito

que quer ser eleito
com lisura na eleição

bençãos do estado

visto presidêncial
e o aplauso da nação

por deslumbre nacional

ou esperaria sentado
pelo bom senso do eleitor

que não sabe onde vai dá

mas que alheio ao voto dado
Saúda o Governador

que agora governa, vá lá!

2.6.09

O Bobo

Entretia o ar da sala
com alfinetes de gás

o reino arruinado ria

fadas boas perdiam a fala
para alegria das más

o resto do reino rindo

como quem nunca se cala
e vira eco consigo atrás

de repente o bobo para

ouvindo um grito de abre ala
trajado todo de lilás

a reclamar: - mas que festa cara!

o reino já caindo na vala
e esse bobo cavando sem pás

1.6.09

Entre Livros e Desafetos

Era tísica
meio mística

falava inglês

e quis de cara
- coisa rara! -

virar freguês

habitué, vai e vem...
todo santo fim de mês

era ela e a tara

levando o que podia
as vezes passava o dia

escolhendo

como se fosse um Noé
para uma arca qualquer

só queria a massa

- mas que traça!
pensava a bibiliotecária

essa nerd é uma otária!

por que não vai chupar caralho
ou então dar o rabo

a toda classe operária

30.5.09

A lábia da mulher à toa

A lábia da mulher à toa
alarga umbral no escuro
dando passagem à loa

nascida no alto monturo

tal mulher é da janela
e dela nada escapa
nem fogo nem panela

nem rua nem arruaça

o seu olho visceral
só se arrisca no olhar
mas ela é toda verbal

e olha só o que vai contar

enquanto traga fumaça
de modo circunstancial
antes do olho fechar

29.5.09

Menarca

Entre a febre vespertina
e o bafejo dos vulcões

dublado em ais e uis

derreto a menina
que jamais eu fui

diante das multidões

28.5.09

Especulativo

Ó, quanta gente só
vive sozinha porque quer

ali fazendo o social

vendo as panelas
sem meter sua colher

o que é que há com elas?

será que são do mal
ou o bem é que as requer?

27.5.09

Esmero

És mero esmero
capricho dos espelhos

- do último ao primeiro -

mas teus olhos vermelhos
dão vontade de olhar

de mergulhar rasteiro

baldear o alto mar
em busca de outro mar

26.5.09

HPV #6.9

Cauterizo em ton banal
o que restou do outro em mim

eu, apelo carnal

vocifero mastigando marfim
enquanto espero - ai de mim \o/

pelo juízo final

24.5.09

Pero Vaz de Caminha

Não é culpa minha
se Pero Vaz de Caminha

fez crescer o olho do rei

contando historinha
dessa terra sem lei

Não tenho culpa

pode olhar com lupa
estou de alma limpinha

de Caminha nada sei

23.5.09

O Trânsito

Velho, veja bem
entre idas e vindas

há risco e vai e vem

contornando as almas lindas
- e as mais feias também -

22.5.09

Das Noites

Travesseiro, companheiro
não te espantes se eu hoje rir

por estar sem dinheiro
e não poder ir

em busca de um curandeiro

desses que fumam amônia
como se fosse natural

no meio da Amazônia
noutra fagia tribal

é que não há cura, travesseiro

daqui até a Lapônia
do reveillon ao natal

nada dura passando ligeiro
nem escapa ileso no final

21.5.09

Enquanto isso, na Ala Terminal...

Cagado em fezes
disse por dizer

ao número 13

cancer não dói
fede as vezes

e corrói

antes de apodrecer

20.5.09

Extravagância

Ó virulência, latomia
que de algoz nos ojeriza

escamoteias o que vigia

como se fosses juíza
com lisura e garantia

como quem se imuniza

em nome da agonia
que nos aflige e inferniza

- és tão dura e fria!

feito estátua que se eterniza
num cruzamento ao meio dia

17.5.09

Cadafalso Trampolim

Cadafalso trampolim
esplendor da danação

armado dentro de mim

no lugar de um coração
que esperou antes do fim

vislumbrar compaixão

entre almofadas de cetim
espalhadas pelo chão

16.5.09

Observação do amor nos outros

No amor o ar se gasta
vira gás em língua afoita

e pelos sexos se arrasta

em tara às claras ou na moita
para o amor amar só basta

quando atiça e açoita

da vadia a mais casta
criatura que se acoita

no que eleva e devasta

15.5.09

Oratorium

Sodomizado o anjo caído
que de asas escaldadas
entrega pragas precavido
- todas endereçadas -

Pede a Deus alça de mira
pro mensageiro inocente
de cada praga que atira
em nome do remetente

Que a praga só tenha ida
para tal ida não ter volta
e nesse trânsito se divida

Em tola maldição torta
- no vai e vem da vida -
batendo de porta em porta

9.5.09

Fragmental

Estilhaço, pedacinho
miudezas repartidas

espalhadas nos jardins

e ai de mim, que sou sozinho
e corro nu nas avenidas

trocando os bons pelos ruins

ali, onde cada caquinho
como as partes queridas

dos meios, justificam os fins

8.5.09

Iniciato

Menino, venha cá
cure aqui uma ferida

que vive cheia de pus

e depois se vá
achando que nessa vida

tudo é carne em corpos crus

7.5.09

Doce! Doce! Doce!

O fio da meada
- que piada -

é feito de uma calda
doce, de marmelada

vindo por cima, jogada
de uma torta encruzilhada

oferecida a caminhada
como quem não quer nada

6.5.09

O Nó

Roído o nó
o amor não dói

nada, nadinha

marca indelével
com réstias róseas

amantes feitos de pó

...doer, doer, não dói
mas não provoca gargalhada

roer o nó por nada

5.5.09

Alegoria Terminal

Exulta o avesso de manhã
com mil sóis dependurados

por pavios feitos de lã

ao despertar infectados
com beijinhos de hortelã

muitos mimos e cuidados

inflamados sob o afã
dos finais inacabados

numa enorme trama vã

3.5.09

Abaixo da Linha da Cintura

Pela púbis não se jura
e pentelho só dá gastura

embora haja o que se atura

sem ilíacos de ossada dura
que pêlo crespo se segura?

aliás, que curvatura?!

mesmo sendo somente usura
- sem medida para tortura -

Pela púbis não se jura

2.5.09

Domesticagem

Aberto o chão xadrez
e engolido os aventais

restará somente acima

o que pouco importa
ou o que tanto faz

ali desafiando o mês

como quem se desentorta
nos seus miúdos uis e ais

27.4.09

Prece Avulsa

Boca do sapo
bico do corvo

perna de pau
boca de lobo

Senhor dos olhos abertos
vós que sois o mais augusto

e justo

vinde a nós
que somos

avulsos
e vorazes

e em nosso socorro
socorrei a alegria

porque o dias são duros
e as pessoas duríssimas

mas ainda assim

- confiantes

e humildes =T

esperaremos na fé
por dias melhores

e esplendores

24.4.09

Chupa essa Manga

Uma manga atrás da carta
não se chupa sem olhar

pode ser tudo de pano
tecido fino no tear...

mas longe do engano
- vendo a manga -

pode chupar

23.4.09

Coiffeur

Quem penteia logorréia
ama o crespo por amar

enfeita - com viés e cefaléia -
cabeças feitas para pensar

nos pentes que penteiam
ou nos que podem pentear

verborragias que clareiam
o mal assombro de calar

22.4.09

Defensivo

Resta somente gracejo
iluminado e verdadeiro

extrapolado no ensejo

ao se mostrar certeiro
contra a lorpa de desejo

miúdo e passageiro

21.4.09

Lábia Torta

Deus conserve a lábia torta
numa rasura amarelada

ali pregada atrás da porta

e que dali só saia morta
para só depois ser enterrada

em cova funda e bem cavada

por quem não mais suporta
tanta história mal contada

20.4.09

A Consultora da Avon

Cílio postiço
do olho
de vidro

olha

pra mim
que sou
sem brilho

e diz

de que se faz
o bem querer
e o mal feito

duas coisas
tão distintas
levadas dentro

do peito...

18.4.09

Língua de Pato

Em que língua cantarias

com eficácia e maestria
as avulsas agonias

dadas no dia-a-dia?

em qual língua deixarias
o doce gosto de sangria

das suaves hemorragias

que estancam a alegria
como quem fatia as crias

em tardes frias de histéria?

17.4.09

Madame Mistifique

Diz de que é feito o fausto do rei nu
e salva essa tarde toda do engano
do fastio das horas que não passam

Escandaliza-nos sem suavidades e
corrompe o bom gosto das gentes
simples, sem elegância suposta

Rasga a pele dos ídolos vãos e diz
de que é feito a soberba e as manhãs
garantindo assim o próximo instante

16.4.09

Clerical Caiado

As línguas excomungadas
mesmo quando marcadas

covarde e publicamente

trazem levezas pesadas
em balanças viciadas

pelo que já nada sente

15.4.09

Estelar

Quis o céu mais distante
grão de areia querendo amar

virou então estrela e foi brilhar
por si mesma, cintilante!

deslumbre do instante
dado ao susto de penar

desejando estrelas do mar
com requintes de amante

mas tal distância estonteante
causava, vejam, falta de ar!

14.4.09

Dias de Graça

Virando assunto

revirou-se
e quis por si

pelo teto e por ti

contar os dias
de pão doce e presunto

no festival de azias

ali, tudo junto
nas fuzacas e folias

dando vontade de comer

aos dias que por si mesmos
trazem o ontem defunto

sem dar dor nem doer

13.4.09

Sanguíneo

Famíliar é esse
gosto de sangue,
protegido da virtude,
nas bocas afoitas.

virulência é isto,
é deixar-se propagar
no trânsito das veias:
virar sangue.

engasgo meu de ais.
benção bendita de mãe.
o pai pagão, um irmão
gentil.

caldo quente que se entorna
de afeto ressentido de tanto dito
por dizer

12.4.09

Umbrais Caiados

- Trago sede de água e sal
quisera beber o mar...

- Não podes, animal!
beber tanto sal

só vai te fazer mal

- Mal nenhum pro mar
e mato tal sede afinal

mas o sal que restar

que sirva para bem salgar
a terra boa de plantar

do outro lado do umbral

- Malvadeza, és a ponta do punhal
por que querer tanto mal?!

terra onde se planta precisa respirar
e respirar traz a benção divinal

assim assado o que restar de sal
leva contigo quando fores te afogar

11.4.09

Desdém

Eu não sabia
que o sol das três
horas da tarde
iluminava o destino
das pessoas vãs

Essas que nem fedem
nem cheiram e
que se justificam
bambas na corda
esticada de seus afãs

Soube disso assim
sem preparo algum
num susto pênsil
vespertino
de luz anã

10.4.09

E se doer?!

Doendo
não há quem possa

mesmo não sendo

dor clamando por resposta
em ambiente hospitalar

anestésicos, tubos de ar...

o corpo só leva mesmo
o que pode carregar

dor maior desfiam as almas

não podendo acreditar
sequer na benção da morte

para tanta e farta falta de sorte

9.4.09

Lubricidade

Que dizer dos corpos lúdicos
dos excessos do dia e da noite
que por si só são lúbricos
e acordam a carne num fóbico açoite

Que dizer dos apelos do vício
do encontro marcado
que transmuta o gozo em suplício
e devassa o orgulho já cansado

Que dizer, ó Senhor
da promessa feita um dia
que se quebra sem pudor

Que fazer Senhor meu Deus
se o que tento corromper, por ironia
são os bens que já são teus

8.4.09

O Gelo, O gás e a Vontade de Correr

Num pedacinho de carne

os que podem muito
os que podem mais
os que nada podem

e os que vem atrás

vivem a sós suas vidinhas
como quem vigia Deus
esperando que dele venha

um grande freezer a gás

salvação do pedacinho
dos que podem e querem muito
dos que nada podem e querem mais

e dos que - coitados - correm atrás

7.4.09

Diversidade

Era um jovem sodomita
fetichista e cristão
de admirável conduta
mas muita, muita ambição

E por incrível que pareça
apesar de toda a pressão
gostava do leite derramado
e do sangue da celebração

Para o rito ancestral de domingo
vestia-se bem, fazia disso questão
pois o hábito que não traz o monge
é como a fé sem oração

O seu lado que era feito de tara
aquele que parecia pagão
não ofuscava a virtude
antes fazia dela clarão

Mas havia os que nada entendiam
e aqueles que jamais poderão
saber que se pode ir além
com o sodomita cristão

6.4.09

Iconolatria

Os olhos dos iconoclastas não vertem
lágrimas, deles escorrem o mais letal
dos venenos, suas narinas aspiram
os sonhos que restam, em suas bocas
o desejo vão é tragado

As mãos dos iconógrafos não tremem
mas trazem falanges nodosas
e têm unhas longas de Harpia,
com elas o lacre é aberto e o túmulo
no templo pode ser visto

Perdoa-os, pois, eles sabem o que fazem.
Por eles a ordem é restabelecida.
De suas cabeças pende a justiça,
das suas mãos o passe livre
dos seus desejos, o sonho que resta

5.4.09

Pestilência

Aqui morrem à míngua

os mortos que se dão
ao descaso

suas peles

ressecadas
viram pó aos poucos

seus olhos

refletidos uns nos outros
choram horrores

em pratos seus prantos

lágrimas que gritam
ácidez num clamor

- chororô a gritar -

SALVE UM MENDIGO
MATE UM GOVERNADOR

31.3.09

Alquimia Filosofágica | Questões Avulsas

Todo mundo é alquimista, e daí?

cada um com sua lista
o que é que tem?

por puro amor ou só por tara...

quem se vale de vintém
pode também?!

tudo é vil e escorre grosso

ou há mesmo uma pedra rara
- filosofágica - que nos leve além?

30.3.09

Para lá das colinas

Aonde estão os calabouços
que não constam no castelo?

será este reino livre mesmo?

será que o rei traz nos bolsos
uma foice e um martelo

calculando a esmo

o resto dos arcabouços
que soçobram como elo?

27.3.09

Kaô-Rá

As múmias descalças
não usam band-aid's

se vestem de tempo
e na poeira se gastam

arrastando correntes

algumas ainda com dentes
roem todo o ouro ao redor

mas sabem que serão vencidas
pois não há fome que aguente

nem tão pouco que se alimente

só do ouro e do esplendor
de suas eras esquecidas

assim mesmo as múmias tentam
e quando podem seguem em frente

comendo o seu próprio horror

25.3.09

13/11/#9..

É certo que se morra no final

deixando gastura e desafeto
ali, mal enterrados no quintal

ou na sala sob o mesmo teto
com uma visita circunstancial

é sabido - tudo morre - afinal

e que fique a céu aberto, quieto!
ou preso, ao bom costume social

mas que morto - vade retro! -
sem culpa, ao encontro do infernal

24.3.09

Enquanto isso...

Jura por Deus
- por essa luz!

pelo próprio alumiar

que amar o outro
ainda é possível

bastando só acreditar

que dar rasteira, puxar tapete
furar o olho, querer cegar...

são ruindades sem enfeite

que só o mais desprezível
prefere ao invés de amar

22.3.09

Língua Já

... as marcas dágua nas línguas
das estrelas que brilham à míngua

quem as vê as têm por lindas
sinopse da beleza mais fina

mas tais línguas quando marcadas
em nome de todo o nada

trazem mais que beleza
- beleza só não vale nada -

dada à toa pelas fadas

21.3.09

Precisão

É preciso que se queira
querer mais ou nada mais

tanto faz

lençóis de seda ou esteira
o ser ou não ser dos animais

guerra ou paz

fundo de poço ou beira
seja o que for, queira mais

19.3.09

Jogos de Azar & Outros Apelos

Se no amor tu só te fodes
amarrando gordos bodes

que escoiceiam feito mulas
com intenções muito chulas

esqueça logo tais agruras
- quem precisa de gasturas?! -

e tente a sorte noutro jogo
mas com cuidado, azar é fogo!

17.3.09

Excesso & Ai

Cargas dágua
copos cheios

tanto tonto tantã...

as avós de anáguas
os pais pelas mães

no meio

revirando mágoa
procurando os freios

quem amassa os pães?

e se bonito fosse o feio?
cargas dágua

copos cheios

15.3.09

Blá, Blá, Blá

E falo do gás
como quem trás

seus uis e ais
alargando umbrais

de estreitura voraz
- capricho mordaz -

das musas más
que vivem no cais

atracadas ao loquaz

13.3.09

Roda Girante

Gira a roda da fortuna
nela tudo gira e gira

transformando o ar em gás

da acesa insônia noturna
ao amanhecer que a tira

quem tem sorte pode mais

quem não tem
que corra atrás

a roda gira e gira...

não pára nunca e vai além
transtornando uis e ais

9.3.09

Inspiratorium

As musas mancas
e a orquestra de gás

ambas muito más

trazem por atrás
botox nas ancas

e as trancas sem chaves
das pautas sem claves

além de uis e ais...

as duas valem quanto pesam
mas as musas se retesam

esperando pesar mais

8.3.09

Pretensão

E se eu prestasse
para ser feliz

e se quisesse mais
do que sempre quis

e se calasse os ais

dos seus cada uns
com seus cada quais

tu, que disso tudo ris
acharias graça por trás

do desejo vão deste infeliz?

7.3.09

Impressões do Mundo #7.7

Dos esgotos de Paris
ninguém sai limpinho

e não há banho
nem perfume

pra redimir o pobrezinho
que se arrisca em tais ardis

lá tudo é couro pro curtume
salvação é o que é estranho

só há o susto do sangue
e toda a pele se resume

a podridão e ao mau costume
do moulin rouge ao chão de giz

6.3.09

Ameaça

Te espero lá fora
com gosto de gás

fósforo e desforra

te espero lá fora
- a qualquer hora -

elucubrando ais

com gosto de gás
fósforo e desforra

5.3.09

Cassandra

Eu coleciono palavras

zumbidos indo e vindo
murmúrios e ecos

que retinem e viram cacos

para o meu mosaico
de voz oracular

4.3.09

Simpatizante

Rasgo largas simpatias
pelo que se chama amor

amor sem garantias
amor feito de amor

amor para todos os dias
amor coberto de amor

amor de sapos por gias
de avestruz por condor

amor por todas as vias
amor! amor! amor!

3.3.09

O Grito

Grita aceso o escuro da gruta
estourando desenganos

como carinhos de puta
em veados puritanos

grita a gruta no escuro
ais e uis - que tortura!

as putas indo à loucura
os veados caídos do muro

desengano virando usura - (Putz!)
e nada mais se discute

2.3.09

Outros Ares

Aqui, no eremitério

ninguém leva
o outro a sério

é só o ermo a esmo

se gastando
por si mesmo

e consumido pelo ar

respirado pelo tédio
dos que esperam

por esperar

1.3.09

Estigma

Se eu assusto a quiromante
viro ícone negro de maldade

Ornado de carvão e diamante

Se a quiromante põe a mão
no fogo por mim - Por que não?!

Nem que fosse por curiosidade
ou por qualquer ânimo distante

Nisso eu veria não só Lealdade
Distinção! Devoção!... Mas não!

A quiromante, esse elefante
não esquece que com a idade

O indelével pode ser marcante
- e vir expresso na mão -

Trazendo então não somente
as impressões de uma paixão

28.2.09

Tractus Pactus Buh

O que é que tem
se eu tomo no cu

fazendo voodoo
invocando o além?

fogueirão, lua azul
ondas do mar...

a oferenda se mantém
aonde o pacto começar

ali deixo minha alma
lavadinha, à esperar

pelo amor de alguém
que me queira bem

- até o fim -
quando o fim chegar

27.2.09

As Moscas

As moscas pelos cantos
não cansam nunca não

voam voam e depois pousam
- se espalhando pelo chão -

pois quando não vêem encantos
nas alturas poluídas que as absolvam

adoram a bosta rasteira, por que não?!

26.2.09

Possessão

Para onde irá a legião
quando eu me quiser sozinho

será que todos estes diabos
estarão por fim fadados

a me esperar sentados
sinalizando perdição

ali à beira do caminho?

20.2.09

Aonde o vento faz a curva?

No meu sonho o vento é rasteiro

e varre as folhas caídas
para debaixo do asfalto

deixa a rua toda impune
cheirando à lavanda

os garis amam o vento rasteiro

e cantam samba de raiz como oferenda
para esse sirôco onírico, e dançam

porque dançar é uma forma de chegar
perto do pensamento de Deus

e todos querem se elevar...

mas o vento rasteiro do meu sonho
não é brisa nem é de brincadeira

tanto ajunta como espalha
e aí os garis endoidecem

e fazem promessas

e juram por Deus
enquanto esperam eu acordar

19.2.09

Status Quo

O grande homem
feito de si mesmo

brinca a vera e a valer
no parquinho da razão

parece velho ou menino
sempre com muito poder

sabe de todas as coisas
das vãs as que se vão

como o melhor figurino
assinado em Milão

mas ele busca mais
e cultiva cacoetes

querendo saber dos laranjais
que aparecem nos jornais

e imagina gabinetes
como pomares nos quintais

vistos pelos vitrais
de um canto em falsete

18.2.09

♥ Ais & Uis

Mulheres Opacas

Essas mulheres opacas
que se parecem com vacas

pastando felizes

poderiam ser meretrizes
e fazer da vida uma festa

e ao invés de cornos na testa

trariam coroas - essas putas
rainhas à espreita e às escutas

pelos cantos do curral
Homens Difusos

Os homens difusos
são sempre muito finos

e de multi-uso

parecem meninos
desses confusos

mas não o são

são homens feitos
uns canalhas perfeitos

que ao amor jamais se dão

17.2.09

Decorativo

Suporta

a torta vizinhança
os parentes inconstantes

os inúteis e sua crença
esses amigos de instantes

toda a sorte dessa raça avulsa
não será mais que uma foto

decorando tua estante

16.2.09

Desacato

Mostre-se sem prudência
faça a cama e deite nela

dê um susto na ausência
de sono da sentinela

que vigia e trama sem anuência
- lorpa iluminada à vela -

contra os sonhos
que se sonham à vera

15.2.09

Toque de Midas

O que eu toco vira pluma de faisão
é a minha maldição de leveza e ai

não é invenção minha:
- Vira pluma de faisão!

e sai voando
sustentada pelo ar

maldição, leveza e ai
e vai por aí

sem ter aonde
nem quando pousar

13.2.09

Queira, se puder

Queira bodas

o cio das lobas
o sexo dos leões

o apelo de quem late
os afagos de quem mia

queira a hera do muro

os cadafalsos, a latomia
os acasos do combate

o calor das horas
- compactuadas -

12.2.09

O Encantador de Serpentes

Dócil, encanto cobras
com ares de perdição

prometo asas e elas adoram

algumas não se dobram
e seguem assim como são

vitimadas, se arrastando pelo chão

mas as cobras que ficam, não!
ganham asas esmaltadas

dadas pelo meu condão

10.2.09

Anúncio

Alma turva
baldeada

busca o amor

que a ela se curva
não por ser à toa

mas por pura precisão

como o lôdo e a maldição
nas águas calmas da lagoa

9.2.09

Dadivosa

Eu me daria aos batalhões
e a quase todas as falanges

se não estivesse prometido
a sarjeta e a calçada

as estranhas legiões
e ao que tocas e tanges

para o reino do esquecido
onde se festeja o nada

8.2.09

Impressões do Mundo #7.9

As águas estando turvas
toda a sede é duvidosa

melhor esperar que chova

veja a raposa e as uvas
e como há quem se comova

com os espinhos da rosa

7.2.09

Trolhas & Xavascas

Não te espantes
se amanhã o amor ruir

ali, na hora do xixi
e fizer tudo arder

nada estará perdido
depois desse amanhecer

mas somente assim - ardido
poderás perceber

que o amor, por maior que for
as vezes trinca e faz doer

6.2.09

Revelação do Mítico, da Demência e do Caos

O mítico casual
a demência mal contada

e o caos na rua lateral

não trazem decência
nem virtude escancarada

- carregadas do banal -

são feitos sim de imprudência
e de urgência mascarada

quando revelados afinal

5.2.09

O que não mata engorda

Me esfarelo por você
na contra-mão das idas sem voltas

me arrisco no incerto trânsito
das ruas mal-assombradas

por você eu viro grão
cisco no olho gordo da maldade

píres duralex batido no liquidificador
e servido como açúcar na hora do chá

tipo diet - levezinho
para não engordar

4.2.09

Inferno, Irmãos & Cia

Como saber ao certo
se não cabe no mundo

nesse, que é sede do inferno

o tipo tido como esperto
aquele que vai a fundo

sem nenhum tremor interno

ou qualquer brio contundo
que o deixe mais perto

de um abismo fraterno?

3.2.09

Enfermaria #13

As abstrações do ser
macaqueadas com demência
não são vistas no hospital

Por lá somente há
vísceras e virulência
e as carreiras brilhantes

Que se findam também
(cada uma por si mesma)
num cantinho da Emergência

1.2.09

Medo de Viver #9

Tenho medo
do câncer

da falta de dinheiro
e do desamor

do escuro
do riso contido

das horas
que não passam

do que dói
e deixa marca

indelével

do indelével

da falta de vergonha
do descaso desmedido

do Presidente
que some as vezes

do comercial
do desconhecido

do ilegível
que não se alcança

com o olhar

31.1.09

Susto Abrupto

E vens me contar das intrigas
que se ocultam em minhas rimas
como quem anuncia novidade

engana-te, Maldade

nestas entrelinhas
com ou sem suavidade
não há mentira

não há verdade

há uma busca como a tua
de venturas, amor, salvação
posteridade..

quem sabe?

30.1.09

Visceral Junkie

Sim, há quem faça
das tripas coração

quem dê nó em fumaça
dentro de cada pulmão

e ainda ache graça
na mais malvada maldição

isso tudo vem na raça
dessa louca multidão

que virará carcaça
ainda nessa encarnação

sem a culpa que disfarça
a irrelevância do perdão

29.1.09

Altos Platôs

Faz um verso
com essa gota
de suor

e lambe

ensaia esse vôo
com a língua
solta

e lembra

depois dos ares
dos ventos, do alto
enfim

que a queda é certa

mas que mesmo assim
terás por prêmio na boca
o gosto mais puro

de mim

28.1.09

O Avalista

Infame

é este teu olho
a medir em mim

o que em mim
não tem medida

e é amor ainda

27.1.09

Bicha Burra Nasce Bofe

Todos os emos e punks e putos
não valem mais que uma bicha

do tipo que desmerece insulto

dessas que seguram as pontas
dos funerais aos festins

e se fazendo de tonta

reduz dragão à lagartixa
transforma água em gin

esperando que paguem a conta

26.1.09

Trairage

Corra o risco confidente
de se expor nu e ao dente

aí peça assim, meio carente
naquele ton, o mais ardente

- Beije-me, Judas!
assim mesmo, de repente

já dando a corda pro demente
apontando a árvore em frente

25.1.09

Boneca Bibelow

De que louça te forjaram
para assim te arriscares

nos folguedos de amar?

acaso não sabes ?
não te contaram?

que brincando, brincando
acabarás rendida

aos apelos vulgares

de toda tara escondida
nos excessos do amor

24.1.09

Para quem se Afoga

Que se fodam os afogados
por buscarem no profundo

nas águas puras das fontes

os puros teores escaldados
no verídico mais imundo

- Que se fodam aos montes!